Histórias, algumas reais

quinta-feira, 5 de abril de 2007

UMA QUESTÃO DE DESMOTIVAÇÃO

Não sou uma jovem atleta para com a qual se tenha de ter determinados cuidados para evitar que venha a detestar a corrida poucos anos mais tarde. Sou apenas uma mulher a correr. Uma das poucas. Uma das que correm e têm também no seu companheiro (marido/namorado) um corredor assíduo. Mas há coisas que nos mudam a vontade, definitivamente ou não.

Sempre gostei de correr. Comecei com sete, oito anos, no Grupo Desportivo de Vialonga. Não sei se fiz duas épocas completas, pois a discriminação na atribuição de ténis novos fez com que a minha mãe me retirasse do clube. Fez bem. Lembro-me dos treinadores sempre me incentivarem e me congratularem mesmo quando ficava quase em última, mas pelos vistos, quem mandava não concordava que se apoiasse todos os atletas da mesma forma, mesmo tratando-se de crianças!

Voltei a correr com o meu irmão mais velho por volta dos meus 14 anos, de forma a emagrecer e melhorar a forma e o aspecto físico. Fui correndo com uma frequência muito irregular. Tudo dependia da vontade. E a vontade é quase tudo. Eu gostava mesmo de correr, de suar, esforçar-me e conseguir, sentir o ar na cara e o cheiro da terra molhada do pinhal, sempre explorando novos trilhos, ouvindo os pássaros, assustando os coelhos e outros bichos. Gostava de sair de casa com equipamentos inventados e enfrentar os olhares reprovadores das vizinhas. Era uma adolescente e ia correr muitas vezes sozinha. Isto aconteceu há 15 anos atrás.

Anos mais tarde, pelos meus vinte e tal anos, encontrei alguém, que é hoje meu marido, e comecei a correr com alguma regularidade, pois ele também gostava de correr.

E tudo começou por uma "Mini" da Ponte, em 1996. Uma brincadeira que adorámos! E a partir daí, começámos a participar em provas abertas a todos. E foi uma cavalgada que nunca mais parou.

Só que o ritmo se tornou alucinante. Como "obrigatório", tínhamos já o Troféu da Câmara Municipal de Oeiras - Corrida das Localidades, também o Troféu da Câmara Municipal de Almada, onde corria como veterana, apenas com 30 anos de idade, e por isso "tinha algumas hipóteses", dizia o meu marido, e todas aquelas provas populares que fazem parte da agenda de qualquer atleta de pelotão.

Todos os dias saio de casa para o emprego por volta das 7h45m e regresso às 20h00.
Tenho uma filha de 2 anos e meio. A lida da casa é sempre da mulher ( por muito que se fale de igualdade ). Treinos: sozinha, às 5:45 da manhã, em ruas escuras e desertas, e numa pista de atletismo, fechada a essa hora, onde aprendi a pular muros e a entrar clandestinamente, a ouvir as aves nocturnas e as mais madrugadoras, incomodadas por aquela intrusa de roupas com tiras reflectoras. Aos domingos: provas!


Quando pseudo treinadores conseguem transformar prazer em obrigação, quando o amor e o comportamento são postos em causa pelo facto de se correr ou não se correr, quando nos ameaçam se o nosso peso não baixar, ou se não treinamos, ou se estamos cansados, ou se simplesmente não correspondemos no treino ou na prova, se não cumprimos o programa de treinos estipulado, se há castigos e recompensas psicológicas em função do nosso comportamento na corrida, então começa-se a pensar no peso exagerado que a corrida tem na nossa vida e a meditar profundamente no que é afinal importante. Eu comecei a sentir que precisava de me libertar, de me sentir livre para não correr, para poder escolher. Precisava de parar. E parei...

Não sei quando nem se voltarei a correr. E eu gostava! Gostava mesmo! Mas hoje para mim, não correr é uma arma. É um desafio, uma luta, onde o que conta é a minha vontade. Hoje, deixei de ter vontade de correr e até talvez de viver, mas isso é outra história. Estou amarga e choro. Parei de correr e não sou ninguém...

Ana Pereira
2001

3 comentários:

Ana Paula Pinto disse...

Olá

Sim, eu já tinha lido esse teu texto, num portal onde costumavas escrever.
Entendo o que querias dizer, mas não é o mesmo caso. Eu é que sou muito exigente e tenho pouca paciência para "marcar passo". Quando quero algo, não gosto de esperar e eu quero correr...entendes? Logo, não queria ter perdido este tempo todo por causa da lesão que contraí nem esperar que recupere totalmente. Para mim, que comecei tarde, fez muita diferença e regredi bastante.

Obrigada pelo apoio e incentivo.
Até Sábado.
Beijinho

Nilson Barcelli disse...

Há o correr para participar e o correr para ganhar.
Os treinadores devem aceitar isso, pois não estamos a falar de alta competição. E nem podem ganhar todos...
E com a vida de trabalho/casa que tens ainda mais valor tinha a tua participação.
Beijos

PS: finalmente coloquei o teu link, espero que o teu treinador não se importe... hehehe... desculpa a piada, mas não resisti...

Maria Sem Frio Nem Casa disse...

Para o Nilson Barcelli:

A minha participação não tinha valor não... esta afirmação está errada porque a minha participação TEM valor.

Enquanto houver alguma vida em mim, continuo a participar, a correr numa estrada ou numa montanha ou num vale, em busca... de mim.

E o treinador? Hoje já não há treinador nenhum. Sou só eu!

Ah, e obrigada pela colocação do link.