Histórias, algumas reais

sexta-feira, 4 de abril de 2008

A Maratona que não fiz - Transestrela - Agosto 2003

Correr...Decidir fazer a Transestrela a 9 de Agosto de 2003, ainda estávamos no início de Abril.

A preparação começou bem. Os treinos foram aumentando de frequência, intensidade e duração.

Faço séries de 2 km, fartleks, sessões longas. Treino na praia, no pinhal, na pista, na relva e na estrada.

Tendo em vista a maratona de montanha, o Monsanto foi o local predilecto para as sessões longas.



Até que aquilo que mais temia se volta a repetir. Após uma sessão longa de 3h10m, eis que surge na tíbia direita uma ligeira dor difusa. Bem conhecida por mim, infelizmente. Talvez seja uma impressão, tento iludir-me mas no treino seguinte a dor já não é difusa, está lá, e pela infeliz experiência que já tive, sei que o diagnóstico é só um: fractura de stress.

Insisto em mais um treino, mas a situação só se agrava. Não pode ser, não posso acreditar que tudo se repita! O sonho tem de acabar? Falta pouco mais de um mês para a maratona e o repouso que possa ter não cura a lesão e perco todo o treino necessário que já tinha.

Talvez...talvez se fizer a prova muito, muito devagar, consiga. Talvez se colocar aqueles produtos anti-dor, tipo gelo em pó, eu consiga suportar as mais de 4 horas a correr em tão duras condições. Talvez consiga. Contra tudo e contra todos, inscrevo-me.

Parei mais de 2 semanas e volto a treinar. Falta uma semana para a prova. 50 minutos e acabo a coxear. Vai ser impossível!

O sonho acabou.

Chego a casa e a Organização tinha enviado nesse dia mais detalhes sobre a prova. Logo hoje!

Choro. De raiva, de pena, de desgosto, eu sei lá, e com as lágrimas nos olhos reenvio o e-mail dizendo que o meu dorsal estava à disposição, pois eu não ia poder correr.

Dias depois eram 5.30hrs da manhã, e via nascer o dia na Serra da Estrela. Vi as pedras acordarem, saindo da escuridão e tomando forma, e tive a oportunidade maravilhosa de participar na maratona, desta vez de uma forma totalmente nova para mim: estive nos abastecimentos e percorri a serra de jeep. Vi os caminheiros e os atletas, e num misto de inveja e felicidade, revi-me neles. E nos seus rostos cansados mas felizes, nas palavras e olhares trocados, no suor que lhes escorria pelo corpo, no pó e na alegria que transportavam e transmitiam, eu arranjei de novo forças, para mais uma vez começar tudo de novo.

Ana Pereira - 2003

quarta-feira, 5 de março de 2008

Trilhos de Mogadouro - Amendoeiras em Flor - 26.02.2005


Trilhos do Mogadouro - Fevereiro 2005


No Mundo Fantástico da Montanha, fui ao céu e caí. Mas que importa? Vivi e sobrevivi.


Repetia tudo outra vez com um enorme sorriso e um prazer ímpar que só na montanha alcançamos.


Trilhos do Mogadouro. Uma prova de montanha, na distância aproximada de 14 Km.
Depois de quatrocentos e muitos quilómetros de carro, chegamos ao Mogadouro a pouco mais de hora e meia para a partida da prova em Valverde.


Partida dada e depressa me isolo. Primeiro na cauda do pelotão, depois na cauda da cauda. O piso é excelente, caminhos de terra batida com poucas pedras. Os ares são óptimos e a meio da prova somos presenteados com uma significativa queda de neve sob um céu cinzento escuro divinamente iluminado por um sol que teimou em ficar até ao final da prova.


Sem pressa, pude parar para ver aqueles montes salpicados de neve, assim como eu própria.


Olhar o céu como se estivesse deitada no chão e receber no rosto todo aquela frescura em forma de floquinhos de neve. Nas subidas tive tempo para respirar fundo, pisar neve intocada , tirar as luvas e tocá-la com as mãos. Ai se não estivesse ali sozinha e ainda fazia uma batalha com bolas de neve. Já que nada perdia para além de tempo, e esse era todo meu, aproveitei o que pude. No entanto no meio de tanta beleza, há uma ideia mais negra que o céu que me assalta constantemente: "Não consigo, não vou conseguir, porque me meti nisto?"


Desistir? Como? Tinha sempre de ir ter ao Mogadouro, onde com alguma sorte ainda teria a meta instalada e alguém à minha espera. Ali ninguém me viria buscar, e nos abastecimentos achei que estava bem para continuar. E lá fui, andando, correndo, parando. Inspiro e absorvo o que me rodeia: o ar, o sol, a neve, o céu, a montanha!


Penso que já não está ninguém atrás de mim até que sou apanhada por um atleta de alguma idade e que me diz que ainda há outro atrás de nós.


O tal atleta e eu acabamos por seguir juntos, entre ajudando-nos mas sendo eu mais ajudada que ele. Agradeço aqui publicamente ao Sr. Manuel Fonseca Santos que me incentivou e muito para caminharmos na última subida já para a vila de Mogadouro para depois em terreno plano "cortarmos a meta a correr" – palavras suas que foram sem dúvida alguma fundamentais para que eu viesse a cortar a meta pois por minha vontade, chegada ao Mogadouro ia mas era para o quarto, onde ninguém me visse, pois a minha prestação foi vergonhosa e humilhante: 1h56m em contraste com o já não muito famoso tempo do ano passado: 1h24m!


Cortar a meta deu-me ânimo, pois ainda havia lá gente, a sorrir para mim (não a rir de mim), para além da minha amiga que quase gelou à espera que eu chegasse para me tirar uma fotografia enquanto pensava seriamente que eu tinha sido engolida pela montanha, e toda a organização simpática e atenciosa, e ainda algum público.


Para além disto tudo, o facto de cortar a meta ainda me valeu um prémio monetário! Só porque as mulheres que correm se contam pelos dedos. Literalmente! Ou seja, havia prémios monetários para as primeiras cinco de cada escalão, e veteranas eram precisamente cinco, e obviamente, eu fui quinta! E por isso ganhei 10 euros na prova onde tive a minha pior prestação de sempre! Alguma coisa está mal. Talvez o que esteja mal é as mulheres não correrem, talvez não pelo facto de não quererem, mas pelo facto de não poderem. Talvez…


Se valeu a pena? Claro que valeu! Para o ano lá estarei de novo, mas de preferência com um mínimo de capacidade para correr na montanha.


Ana Pereira
Fevereiro 2005

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Obrigado Senhor!


Sou um velho a quem, não os anos, mas sim a doença, tirou o prazer de correr.

Mas agradeço Senhor, por nesta minha vida me teres dado o dom de me saber reconhecer e encontrar quando me foi possível correr.

A minha vida foi sempre uma nulidade. Tinha a mulher e os filhos. Ganhava para eles, mas era efectivamente um pai e marido ausente. Abafado pela autoridade feminina da casa, isolei-me no meu trabalho, na Columbofilia , e também um pouco no álcool, confesso.

Os filhos cresceram, e eu estive sempre um pouco aparte.

Reformo-me, e com a minha filha, parece que agora, eu velho, ela mulher, nos encontramos, e dou, agora eu, os meus primeiros passos, na corrida. No pós-reforma, a corrida tornou-se então a minha vida! E fui feliz Senhor, nesses breves anos em que tive a dádiva de poder correr, e ouvir o bater do meu coração e os meus passos no chão, e encharcado em suor alcançar mais uma meta em cada prova em que participava!

E senti-me vivo, Senhor! Ah, Senhor, como fui feliz nessa breve passagem da minha vida (pouco mais de dois anos). Sentir o ar na cara e a minha alma elevar-se como nunca se elevara na vida! Tentar, arriscar, ousar, eram palavras que eu nunca usava e que com a corrida, foram todas postas em prática e superadas! Tanto que a corrida me deu!

Depois de me mostrares essa luz na vida, voltas a apagá-la, Senhor! Com esta doença é-me vedada a corrida e só me é permitido pouco mais do que caminhar lentamente.

Agora, vou ver a minha filha correr, e trémulo, seguro a mão da minha netinha e tomo conta dela para a mãe poder correr! Afinal, ainda sou útil. E alegro-me com as suas conquistas e assim vivo ainda um pouco a corrida, mas dentro de mim há um imensa tristeza apenas compreensível para quem ama a corrida. Todos os outros me chamam de louco, velho tonto!

Mas Senhor, quando por fim descansar no meu caixão, estarei feliz, porque vou olhar para trás e ver que nesta vida me foi dada a alegria de poder correr. Como aquelas coisas em que nem que fosse apenas uma vez na vida, tinha valido a pena! E valeu a pena! Obrigado Senhor.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Partida

Ajeitou o cabelo à miúda e limpou-lhe melhor os cantos da boca ainda alaranjados do sumo das duas únicas laranjas existentes na fruteira e que ela lhe tinha acabado de espremer.

Saiu de casa sem ter ninguém de quem se despedir. Partiu livre por fim. Partiu livre mas não ia feliz.

Meteram-se no carro e na auto-estrada uma vez mais. A pequena adormece e fica o rádio ligado para não deixar soar em murmúrio que fosse, os pensamentos dela. Os pensamentos… quem os controla? Demasiado perigosos para a hora e o local. E a paisagem negra só porque é noite, fica-lhe para trás vertiginosamente enquanto ela avança para o vazio.

Apresentou-se-lhes para o fim-de-semana com um ar desolado e desarranjado. Como condenado a caminho da forca. Tentou sorrir mas a sua tristeza mal disfarçada por um sorriso também triste não passou despercebida a ninguém.

Pouco falou e estava ali a cumprir a pena. A pena de estar viva e de ser mãe. Faz aquilo e isto e tudo o resto pela filha. Para ela é já tarde e os portões estão fechados e o caminho vedado. E as forças que lhe restam são já insuficientes porque ela baixou os braços e não os consegue nem quer levantar.

Sorrisos sarcásticos de quem se julga inatingível por certos dramas fizeram-na esforçar-se por conter as lágrimas que se acumularam em forma de nó difícil de desfazer na garganta. Incompreendida e só, foi como se sentiu. Uma imensa solidão*. E sentiu a dor, aquela que a acompanha há décadas e que ninguém compreende. Nem sequer ela…

Ana

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* Definições de “solidão” dadas por Chico Buarque numa entrevista a um jornalista:

Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo... Isto é carência!

Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar... Isto é saudade!

Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes para realinhar os pensamentos... Isto é equilíbrio!

Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsivamente... Isto é um princípio da natureza!

Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado... Isto é circunstância! Solidão é muito mais do que isto...

SOLIDÃO é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

UMA QUESTÃO DE DESMOTIVAÇÃO

Não sou uma jovem atleta para com a qual se tenha de ter determinados cuidados para evitar que venha a detestar a corrida poucos anos mais tarde. Sou apenas uma mulher a correr. Uma das poucas. Uma das que correm e têm também no seu companheiro (marido/namorado) um corredor assíduo. Mas há coisas que nos mudam a vontade, definitivamente ou não.

Sempre gostei de correr. Comecei com sete, oito anos, no Grupo Desportivo de Vialonga. Não sei se fiz duas épocas completas, pois a discriminação na atribuição de ténis novos fez com que a minha mãe me retirasse do clube. Fez bem. Lembro-me dos treinadores sempre me incentivarem e me congratularem mesmo quando ficava quase em última, mas pelos vistos, quem mandava não concordava que se apoiasse todos os atletas da mesma forma, mesmo tratando-se de crianças!

Voltei a correr com o meu irmão mais velho por volta dos meus 14 anos, de forma a emagrecer e melhorar a forma e o aspecto físico. Fui correndo com uma frequência muito irregular. Tudo dependia da vontade. E a vontade é quase tudo. Eu gostava mesmo de correr, de suar, esforçar-me e conseguir, sentir o ar na cara e o cheiro da terra molhada do pinhal, sempre explorando novos trilhos, ouvindo os pássaros, assustando os coelhos e outros bichos. Gostava de sair de casa com equipamentos inventados e enfrentar os olhares reprovadores das vizinhas. Era uma adolescente e ia correr muitas vezes sozinha. Isto aconteceu há 15 anos atrás.

Anos mais tarde, pelos meus vinte e tal anos, encontrei alguém, que é hoje meu marido, e comecei a correr com alguma regularidade, pois ele também gostava de correr.

E tudo começou por uma "Mini" da Ponte, em 1996. Uma brincadeira que adorámos! E a partir daí, começámos a participar em provas abertas a todos. E foi uma cavalgada que nunca mais parou.

Só que o ritmo se tornou alucinante. Como "obrigatório", tínhamos já o Troféu da Câmara Municipal de Oeiras - Corrida das Localidades, também o Troféu da Câmara Municipal de Almada, onde corria como veterana, apenas com 30 anos de idade, e por isso "tinha algumas hipóteses", dizia o meu marido, e todas aquelas provas populares que fazem parte da agenda de qualquer atleta de pelotão.

Todos os dias saio de casa para o emprego por volta das 7h45m e regresso às 20h00.
Tenho uma filha de 2 anos e meio. A lida da casa é sempre da mulher ( por muito que se fale de igualdade ). Treinos: sozinha, às 5:45 da manhã, em ruas escuras e desertas, e numa pista de atletismo, fechada a essa hora, onde aprendi a pular muros e a entrar clandestinamente, a ouvir as aves nocturnas e as mais madrugadoras, incomodadas por aquela intrusa de roupas com tiras reflectoras. Aos domingos: provas!


Quando pseudo treinadores conseguem transformar prazer em obrigação, quando o amor e o comportamento são postos em causa pelo facto de se correr ou não se correr, quando nos ameaçam se o nosso peso não baixar, ou se não treinamos, ou se estamos cansados, ou se simplesmente não correspondemos no treino ou na prova, se não cumprimos o programa de treinos estipulado, se há castigos e recompensas psicológicas em função do nosso comportamento na corrida, então começa-se a pensar no peso exagerado que a corrida tem na nossa vida e a meditar profundamente no que é afinal importante. Eu comecei a sentir que precisava de me libertar, de me sentir livre para não correr, para poder escolher. Precisava de parar. E parei...

Não sei quando nem se voltarei a correr. E eu gostava! Gostava mesmo! Mas hoje para mim, não correr é uma arma. É um desafio, uma luta, onde o que conta é a minha vontade. Hoje, deixei de ter vontade de correr e até talvez de viver, mas isso é outra história. Estou amarga e choro. Parei de correr e não sou ninguém...

Ana Pereira
2001

quarta-feira, 28 de março de 2007

Horácio

Os ténis estavam imóveis debaixo do alpendre, ainda cheios de areia, depois do último treino, na praia. Revigorante para o espírito na altura, mas ineficaz para o resto dos dias.

Os ténis estavam ali há mais de uma semana. Tal qual Horácio os tinha deixado.

Sem ele próprio perceber bem porquê assomou-se dele uma inércia, uma preguiça, um cansaço, um sentimento qualquer difícil de definir, que lhe tirou a vontade de correr e inclusive a vontade de viver.

Não era a primeira vez que Horácio passava por uma crise como esta. Talvez se devesse ao seu temperamento depressivo e derrotista. E após a morte da mulher, vendo-se sozinho com uma filha pequena, o Horácio ia buscar forças ao imaginário, e lá se ia mantendo na vida, lutando por gostar de viver, pela filha. Sempre pela filha!

O Horácio nunca se amou a si próprio, nunca amou a vida, e nunca soube viver! Tinha na corrida a ilusão de ser feliz.

Mas tantas vezes, o
cansaço, o desgaste de fazer de pai e mãe, derrotavam-no por completo. E o Horácio rendia-se àquela falta de vontade. Para tudo. Até para correr, que era das coisas que ele mais gostava. Aliás nas crises, ele deixava de fazer tudo o que gostava, adoptando uma atitude auto destrutiva, sem no entanto ter a energia suficiente para acabar com a vida de vez.

Encharcava-se em cerveja, empanturrava-se em batatas fritas e dava descanso aos sapatos de corrida.

Mas desta vez era diferente. Horácio sentia isso. Era como se não suportasse mais viver consigo mesmo. Sentia-se sufocar, no fundo de um poço cheio de lodo, onde o sol não chega e tudo é frio, viscoso, escuro, vazio e deprimente.

Uma manhã, após ter deixado a filha na casa da avó, como era costume em dias de corrida, o Horácio foi a três farmácias, e comprou em cada uma delas uma caixa de comprimidos para dormir.

Já tinha feito as contas e sabia com exactidão a dose máxima que o seu corpo suportaria. Ele ia ultrapassá-la largamente.

Cada caixa tinha trinta comprimidos, ele iria tomar noventa. Seria o suficiente para finalmente poder fechar os olhos com a certeza de não os voltar a abrir e encontrar de novo a sua vida de dor e sofrimento próprios de quem é incapaz de gostar de si mesmo.

E assim, o Horácio pôs termo à vida.

Nunca mais foi visto na estrada a correr. Não ficou cá para ver que alguns colegas sentiram a sua falta. Não ficou cá para ver o sol nascer e pôr-se todos os dias. Não ficou cá para ver a filha sorrir muitas vezes, e um dia acusá-lo de não a ter amado o suficiente para ter ficado e vê-la crescer.

Foi a única coisa que o Horácio lamentou. Deixar de ver a sua filha crescer e tornar-se mulher.

Mas a dor de viver do Horácio era a dor de acabar!

Por muito que gostássemos de o continuar a ver por aí a correr, a sorrir como se fosse feliz, a disfarçar o sofrimento junto da filha, não devemos esquecer que não conhecíamos a profundidade da dor que lhe ia na alma, que é das mais difíceis de suportar, e só nos devemos lembrar que hoje, o Horácio já não está entre nós, a sofrer!

Ana Pereira
2001

terça-feira, 20 de março de 2007

Amor no Asfalto

A um amor Impossível, mas que nem por isso deixou de existir

Hoje...recordo...

Conheceram-se numa corrida. Com aqueles fatos de treino dos clubes que tornam os atletas indistintos entre si.

Ele, o António, seco e magro, baixo, uma fraca figura, como se costuma dizer, mas que escondia afinal o corpo trabalhado de um corredor de fundo. Ela, a Marta, pele demasiado branca, descolorida, cabelo escuro preso por um lenço desbotado, quase rapariga sem graça, deformada pelo traje da ocasião.

Não causaram logo grande impressão um ao outro. Só quando os olhos se tocaram, ficaram então paralisados. Falaram com naturalidade, mas já não conseguiam desviar o olhar. Os olhos trocavam outras palavras entre si.

"Penetrante"; foi como descreveu mais tarde a Marta, o olhar daquele rapaz. Verdes, profundos e misteriosos como o mar, atravessaram o visível e o invisível e tocaram bem fundo na alma da Marta, como há muito tempo ninguém tocava. A Marta sentiu-se invadida, trespassada, despida, desarmada por aquele olhar, que ela não conseguia nem queria evitar.

Voltaram a encontrar-se mais vezes. Sempre nas corridas. Iam conversando enquanto corriam.

Ambos tinham uma filha da mesma idade, e por coincidência ambos estavam no 2º casamento.

A Marta era infeliz. O António também. Ambos amavam a corrida.

Conversavam, mas enquanto as palavras saíam, os olhos falavam de coisas completamente diferentes. Os olhos falavam de Amor , de desejo, de carinho, de paixão e de um sem fim de bem querer . Os olhos trocavam carícias e ternuras e tinham a certeza de ter ali a sua alma gémea. Os olhos falavam a linguagem da alma que só quem ama pode entender.

Apaixonaram-se perdidamente. No sonho, beijaram-se e abraçaram-se vezes sem conta , e amaram-se até à combustão dos corpos. Centenas de vezes, milhares de vezes!

Na Vida, partilharam tanta coisa, correram juntos à noite, ao pé do mar, só se ouvindo os seus próprios passos, as ondas, a respiração ofegante e os seus corações cantando alto um amor impossível. Correram à chuva, felizes como nunca tinham sido. Partilharam lágrimas, quando lesionada a Marta não podia correr. Suaram juntos nas corridas. Aplaudiram-se mutuamente, entre ajudaram-se tanta vez, e sonhavam que eram felizes assim.

Havia uma vida para eles, à sua espera. Eles só tinham de dar o primeiro passo. Mas não deram. Passaram-se meses, anos, e nunca falaram do amor que sentiam um pelo outro.

Nunca tiveram coragem para mudar as suas vidas. A Marta nunca soube como era o António vestido de fato e perfumado. Nunca soube o que era tirar-lhe a roupa devagarinho, peça a peça, sem pressa, desapertar-lhe a camisa, admirar-lhe o corpo tantas vezes sonhado e imaginado, afundar-se no mar dos seus olhos e amá-lo de verdade.

O António nunca soube como a Marta ficava linda de vestido preto, e só com um pequeno toque de pintura que logo a transformava numa princesa. Nunca soube o que era tirar-lhe as meias de seda e beijar-lhe cada centímetro de pele.

Nunca souberam o que era viver com alguém que se ama e que nos ama de verdade.

Passaram já vários anos. Eles continuam a correr e a encontrar-se nas corridas. As filhas são já meninas crescidas. Eles falam-se como dois velhos amigos, os rostos envelhecidos e cansados, pequenas rugas denunciando o sofrimento e a dor da vida de cada um, e no entanto os seus olhos continuam vivos como há tantos anos atrás, e continuam a falar a mesma linguagem, encarcerados e acorrentados às suas mentes cobardes, sem coragem para amar e viver de verdade.

Eles não sabem nem nunca saberão o quanto poderiam ter sido Felizes.

Ana Pereira
2000