Histórias, algumas reais

terça-feira, 20 de março de 2007

Amor no Asfalto

A um amor Impossível, mas que nem por isso deixou de existir

Hoje...recordo...

Conheceram-se numa corrida. Com aqueles fatos de treino dos clubes que tornam os atletas indistintos entre si.

Ele, o António, seco e magro, baixo, uma fraca figura, como se costuma dizer, mas que escondia afinal o corpo trabalhado de um corredor de fundo. Ela, a Marta, pele demasiado branca, descolorida, cabelo escuro preso por um lenço desbotado, quase rapariga sem graça, deformada pelo traje da ocasião.

Não causaram logo grande impressão um ao outro. Só quando os olhos se tocaram, ficaram então paralisados. Falaram com naturalidade, mas já não conseguiam desviar o olhar. Os olhos trocavam outras palavras entre si.

"Penetrante"; foi como descreveu mais tarde a Marta, o olhar daquele rapaz. Verdes, profundos e misteriosos como o mar, atravessaram o visível e o invisível e tocaram bem fundo na alma da Marta, como há muito tempo ninguém tocava. A Marta sentiu-se invadida, trespassada, despida, desarmada por aquele olhar, que ela não conseguia nem queria evitar.

Voltaram a encontrar-se mais vezes. Sempre nas corridas. Iam conversando enquanto corriam.

Ambos tinham uma filha da mesma idade, e por coincidência ambos estavam no 2º casamento.

A Marta era infeliz. O António também. Ambos amavam a corrida.

Conversavam, mas enquanto as palavras saíam, os olhos falavam de coisas completamente diferentes. Os olhos falavam de Amor , de desejo, de carinho, de paixão e de um sem fim de bem querer . Os olhos trocavam carícias e ternuras e tinham a certeza de ter ali a sua alma gémea. Os olhos falavam a linguagem da alma que só quem ama pode entender.

Apaixonaram-se perdidamente. No sonho, beijaram-se e abraçaram-se vezes sem conta , e amaram-se até à combustão dos corpos. Centenas de vezes, milhares de vezes!

Na Vida, partilharam tanta coisa, correram juntos à noite, ao pé do mar, só se ouvindo os seus próprios passos, as ondas, a respiração ofegante e os seus corações cantando alto um amor impossível. Correram à chuva, felizes como nunca tinham sido. Partilharam lágrimas, quando lesionada a Marta não podia correr. Suaram juntos nas corridas. Aplaudiram-se mutuamente, entre ajudaram-se tanta vez, e sonhavam que eram felizes assim.

Havia uma vida para eles, à sua espera. Eles só tinham de dar o primeiro passo. Mas não deram. Passaram-se meses, anos, e nunca falaram do amor que sentiam um pelo outro.

Nunca tiveram coragem para mudar as suas vidas. A Marta nunca soube como era o António vestido de fato e perfumado. Nunca soube o que era tirar-lhe a roupa devagarinho, peça a peça, sem pressa, desapertar-lhe a camisa, admirar-lhe o corpo tantas vezes sonhado e imaginado, afundar-se no mar dos seus olhos e amá-lo de verdade.

O António nunca soube como a Marta ficava linda de vestido preto, e só com um pequeno toque de pintura que logo a transformava numa princesa. Nunca soube o que era tirar-lhe as meias de seda e beijar-lhe cada centímetro de pele.

Nunca souberam o que era viver com alguém que se ama e que nos ama de verdade.

Passaram já vários anos. Eles continuam a correr e a encontrar-se nas corridas. As filhas são já meninas crescidas. Eles falam-se como dois velhos amigos, os rostos envelhecidos e cansados, pequenas rugas denunciando o sofrimento e a dor da vida de cada um, e no entanto os seus olhos continuam vivos como há tantos anos atrás, e continuam a falar a mesma linguagem, encarcerados e acorrentados às suas mentes cobardes, sem coragem para amar e viver de verdade.

Eles não sabem nem nunca saberão o quanto poderiam ter sido Felizes.

Ana Pereira
2000

2 comentários:

Nilson Barcelli disse...

Há tantas histórias reais assim mesmo Ana.
Gostei desta história, achei-a bem escrita.
Bom fim-de-semana.
Beijos.

Rosa Silva disse...

Isso chama-se falta de coragem para viver a vida e os sonhos pq segundo S.Francisco de Assis "Comece por fazer o que é necessário, depois faça o que é possível e em
breve estará fazendo o que é impossível"
ok? beijokas
Rosa Silva