Histórias, algumas reais

quarta-feira, 14 de março de 2007

Crescer a correr


Hoje vou falar-vos da minha amiga Paulinha. Por ela merecer, e por achar que este relato possa chegar a alguém que possa e queira fazer alguma coisa pelas crianças e pelo futuro do Atletismo.
A Paulinha tinha sete anos. Era uma menina muito tímida que preferia sempre passar despercebida em todas as situações.

Talvez por isso, a mãe inscreveu-a no clube da terra, na modalidade de Atletismo, mais concretamente corrida.

Três vezes por semana, a Paulinha chegava da escola já escuro, pois era Inverno e às 6 da tarde já era noite. Tirava a roupa da escola e vestia um fato de treino azul escuro com listas brancas de lado nas pernas e nos braços. Calçava uns ténis de pano (sabia-se lá naquela época e lugar o que eram sapatos de corrida!), punha por cima o seu velho sobretudo, e ia, timidamente, com uma dorzinha de barriga, provocada pelos nervos de ter de enfrentar novas situações e desafios, até ao campo da bola, onde decorriam os treinos.

Paulinha foi integrada num grupo da sua idade. Corriam a dois e dois, e ela depressa fez amigos novos. Assim, os dias de treino tornaram-se muito apetecíveis e aquela hora era aguardada com ansiedade. Paulinha ia contente e feliz para os treinos, que ela ainda hoje recorda com muita saudade e com um grande sorriso.

Nos treinos, ela brincava, convivia, e aí aprendeu a integrar-se, a ser sociável, a perder medos e a sua timidez excessiva. E é engraçado como, quando recordamos, os cheiros têm um papel fundamental. Hoje, ela ainda consegue sentir o cheiro daquele campo de terra molhado, dos balneários, do soalho da Casa do Povo (quando chovia treinavam aí). Sente ainda a alegria estonteante de quando iam treinar para o pinhal.

Os treinos eram um misto de brincadeira e de esforço. Ela recorda com prazer o cheiro do autocarro nos domingos de prova, o sabor do pão com manteiga que era engolido a custo pela secura da boca nessas manhãs. O equipamento azul forte. Lindo! A única vez que correu em Alvalade, o ambiente de festa, a mãe que a acompanhou, a desilusão dos pais da Vanda, que ficou desfeita por não ganhar, o que era incompreensível para a Paulinha que tinha ficado num lugar muito mais para trás e não se sentia assim.

Os treinadores (o Vává, e o Alfredo), que sempre a incentivaram, apoiaram e valorizaram os seus modestos resultados. Também os seus pais sempre a fizeram sentir-se uma vencedora, porque ela afinal dava sempre o seu melhor!

Após ultrapassar os seus receios pessoais e uma boa dose de timidez, a Paulinha sempre se sentiu bem a correr. Naqueles dois anos em que correu no clube, a Paulinha cresceu imenso! E não estou a falar do desenvolvimento normal de uma criança dos 7 aos 9 anos! Ela venceu medos, superou-se, aprendeu a relacionar-se e a respeitar os outros, a enfrentar situações menos agradáveis, a esforçar-se e a conseguir, a vencer e a ser vencida! Afinal, coisas tão importantes na corrida como na Vida!

Até que um dia, alguém teve de estragar (quase) tudo. A Direcção do clube decidiu dar ténis aos jovens atletas. Mas infelizmente achou que apenas os melhores deveriam ser abrangidos por tal dádiva! E todos da mesma idade, eis que surgem miúdos com ténis novos e os outros, os que corriam menos, mas que se calhar até se esforçavam mais, continuaram com os seus ténis velhos de pano!

Atingida pela injustiça, acharam por bem os pais da Paulinha tirá-la do clube. E assim a Paulinha deixou de correr e de desfrutar de tudo o que a corrida lhe dava. Felizmente, o prazer de correr, ninguém lhe conseguiu tirar, e hoje, quase veterana, ainda corre por essas estradas fora!

Os outros miúdos, os “melhores” correram por mais uns tempos, mas que eu saiba todos deixaram a corrida mesmo antes de entrarem na adolescência!

E o clube, esse, passado pouco tempo deixou de ter a modalidade de Atletismo, para se dedicar por completo ao Futebol. Também, que apoios financeiros ou outros o clube teve ou deixou de ter para manter essa secção, verdade seja dita, não faço qualquer ideia!

Certo é que, o que o clube faz hoje, passados 25 anos, pela comunidade e pelas crianças, que são o futuro, da terra, do atletismo, e do Mundo, é...nada!
Ana Pereira
2002

2 comentários:

Nilson Barcelli disse...

Os adultos cometem muitos erros com as crianças.
Desde que elas, quando adultas, não cometam os mesmo erros, já se ganhou alguma coisa...
Vi que estás a começar com este teu blog, ainda que com 2 textos antigos e um poema recente (gostei de ler, sabes contar uma história). Felicidades para o teu blog (e, já agora, para ti).
Beijinhos.

arlindo disse...

Ana apenas posso dizer que encontrei estas tuas cronicas por acaso.
Mas achei as tuas palavras melhores que alguns livros que li, (embora não seja um bom leitor)ou alguns filmes que vi.
Sempre gostei de desporto, mas comecei por brincadeira, ou não,a atravessar a ponte, uma festa.E comecei a sentir o desejo de querer mais. Cada vez que acabava a mini, ficava a ver chegar e admirar a coragem de quem acabava a meia e dizia para mim: Um dia gostava de conseguir fazer a meia.
Então comecei a treinar mais,em vez de ser só ao fim de semana,comecei a treinar 2 /3 vezes por semana e com muito prazer. Até que ao fim de 1 ano estava a fazer aquilo que tinha desejado a minha 1ª meia maratona. Agora não consigo parar,passo por sensações e momentos unicos. OBRIGADA PELAS TUAS SENTIDAS PALAVRAS